terça-feira, 30 de junho de 2009

COMUNICADO

Caros leitores,

SOU UMA FARSA.
AGORA PERCEBO QUE NÃO ACREDITO NA PSICOLOGIA.
POR ISSO VOU RETIRAR-ME E ABANDONAR A PROFISSÃO BEM COMO ESTE ESPAÇO.
A NOSSA CURA ESPIRITUAL TEM DE SER PROCURADA NOUTROS LOCAIS.
DESCULPEM-ME, COLEGAS DE PROFISSÃO, MAS HÁ COISAS QUE TEMOS DE ASSUMIR.
ASSUMO AQUI PUBLICAMENTE QUE NÃO ACREDITO NA PSICOLOGIA.

GUARDEM-ME NAS VOSSAS MEMÓRIAS COMO UMA ARAGEM VOLÁTIL.
ATÉ SEMPRE.

A sempre vossa,
Teresa

sábado, 25 de abril de 2009

Doutor Phil acompanha-me enquanto convalesço



Mas toda a minha recuperação se atrasa quando no fim de cada programa ele lhe dá a mão e saem os dois do estúdio e a plateia aplaude.

domingo, 19 de abril de 2009

Vicissitudes de um psicólogo

Caros leitores,

Encontro-me em convalescença. Um paciente, o Sr. António, indivíduo pertencente à máfia lisboeta, atirou-me à cabeça as obras completas de Freud há cerca de quinze dias quando estávamos a meio de uma sessão de psicoterapia comportamentalo-cognitivo-leninista.
Dar-vos-ei notícias assim que recuperar.

domingo, 15 de março de 2009

Testemunhos

Indivíduos de variadíssimas partes do mundo falam muito brevemente sobre os momentos mais felizes das suas vidas, sobre os mais tristes, sobre a família, sobre Deus, sobre o amor, sobre o dinheiro, sobre o sentido da vida e sobre outros temas pertinentes.
A RTP2 transmitiu estes testemunhos a semana passada.

Os leitores que não acompanharam mas têm interesse, leitores apaixonados pelos indivíduos, podem consultar o site e ver e ouvir alguns testemunhos: 6billionothers. Os testemunhos são legendados a inglês.

Doutor Lourenço, espreite porque vai adorar!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Vidas

Hoje no metropolitano sentei-me e fiz uma viagem de quinze minutos pela linha verde. Observei um indivíduo do sexo feminino falando ao telemóvel e, ao mesmo tempo, mexendo noutro telemóvel com a mão que estava livre. Este comportamento durou cerca de quinze minutos. Foi uma observação inédita presenciar um indivíduo utilizando dois telemóveis ao mesmo tempo.

Por vezes a vida é estática e triste e entretemo-nos contando os telemóveis que os indivíduos trazem nas mãos enquanto deslizam pelas linhas do metropolitano. Envergonhados, baixamos a cabeça e recolhemos às nossas casas. Pomos a cabeça na almofada e esperamos acordar menos tristes no dia seguinte.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Depressão

Foi durante as deambulações que costumo dar pela cidade às quartas-feiras que me deparei com um indivíduo que apresentava sintomas alarmantes de depressão.
O indivíduo chorava convulsivamente (algumas lágrimas chegaram mesmo a molhar os casacos dos indivíduos que passavam pela rua) e escondia-se num local alto e isolado, local que lhe permitia distanciar-se dos indivíduos, do contacto social e das próprias estruturas sociais. Quando tentei estabelecer diálogo com este indivíduo pude constatar que a sua cooperação era praticamente nula. O indivíduo recusava-se a ser ajudado.

Porém, persisti. Sentia-me no dever de ajudar um ser perdido nos meandros da depressão.
- O senhor precisa de ajuda, deixe-me ajudá-lo - gritava eu de cabeça inclinada para o céu - diga-me o que sente, diga-me o que o faz chorar, prometo-lhe que é confidencial e que se vai sentir melhor.
Mas o indivíduo recusava-se a cooperar.

Após algumas horas de observação pude concluir que o indivíduo habitava uma nuvem acinzentada de grande extensão, podendo este facto revelar que o indivíduo terá fugido de casa e da família estando agora a viver numa nuvem, desprovido das condições básicas de conforto para um ser-humano.
Com alguma insistência consegui fazer com que o indivíduo aceitasse cooperar e começar uma terapia cognitivo-comportamental baseada na neo-psicanálise. Passaram duas semanas desde o começo da terapia. O indivíduo continua a chorar todos os dias mas a terapia parece estar a ter um efeito positivo no estado emocional do indivíduo. Embora o indivíduo, por embaraço, se recuse a mostrar-me a sua cara estou em crer que a sua auto-estima vá melhorar bastante nos próximos meses e que talvez em Junho o seu choro cesse e possamos finalmente conhecer as caras um do outro.
Até Junho deslocar-me-ei todas as quartas-feiras à Rua José das Dores Pacheco, sentar-me-ei num banco, de guarda-chuva aberto, e bradarei aos céus questões e conselhos sobre a existência e sobre a depressão.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Sábado

Sábado triunfaremos sem patologias de verdade
Lançaremos dez planos em miragens existenciais
Ao sábado mudar-se-á a vida e a vontade
Seremos crianças brincando com os pais
Descansamos, reunimos e vamos ao mercado
Quando sonhando profetizamos os Sábados dos dias
Há laranjas, esquizofrenias e peixe lascado
E os indivíduos fazem malabarismo com melancias
Ah, reminiscência que oprime meu coração!

domingo, 25 de janeiro de 2009

Jazem ainda na minha secretária

Três casos patológicos bastante complexos.

Partilho convosco, caros leitores, um deles:

Um indivíduo, estudante numa universidade que lecciona as Letras, apresenta uma potencial esquizofrenia atípica que anda de mãos dadas com a quantidade de livros, teorias e pensadores que tem estudado ao longo dos últimos três anos da sua vida. Este indivíduo tem episódios paranóides disténicos reminiscentes. Na consulta que teve lugar há dois meses e meio, o indivíduo apresentou-se envergando um fato-macaco azul escuro julgando viver numa distopia. Noutra consulta mais recente insistia em dialogar comigo somente por meio de citações: "como diria Nietzsche" ou "como diria Hegel". Na última consulta apresentava um estado avançado de ideias delirantes, uma linha de raciocínio bastante confusa misturando ideias do que me pareceu ser Heidegger, Simmel, Jankelevitch e Santo Anselmo. Além de todos estes sintomas, o indivíduo em questão sente-se recorrentemente perseguido pelos professores que leccionam as cadeiras afirmando que estes têm por hábito torturar lentamente os alunos desprovidos de contactos importantes na universidade, vulgo cunhas.

Torna-se complexo ajudar este indivíduo sem o encaminhar para o Doutor Lourenço. Contudo, gostaria primeiramente de tentar uma solução terapêutica para este paciente que não envolvesse medicação.

Aceito, caros leitores, as vossas sugestões na resolução deste caso.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Porque ninguém explicaria melhor

Caros leitores,
Se a falta de imaginação está comigo (juntemos-lhe três casos patológicos bastante complexos na minha secretária), resta-me deixar-vos uma pequena reflexão de um escritor e pensador fundamental:

Todo o escritor que é original é diferente. Mas nem todo o que é diferente é original. A originalidade vem de dentro para fora. A diferença é ao contrário. A diferença vê-se, a originalidade sente-se. Assim uma é fácil e a outra é difícil. A diferença é uma fórmula, a originalidade é uma forma ou mais do que isso um modo de se ser. Para se ser diferente vai-se ao alfaiate ou à modista. Para se ser original vai-se ter com Deus no momento de nos fabricar. É fácil escrever-se sem pontuação ou com pontos e vírgulas em vez de pontos finais, ou escrever com minúsculas depois desses pontos, ou atirar com as palavras à arrebatinha e dispô-las como caírem, ou escrever ondeado em vez de a direito, ou cortar a prosa aos bocados e dispô-los em vários tamanhos, ou deixar as páginas em branco ou a preto, ou fazer qualquer sorte de piruetas como um palhaço de circo. Agora o que é difícil é sentir de um modo novo, recriar um mundo por sobre o que já foi recriado, ver o que os cegos constitucionais não enxergam. Pôr seja o que for de pernas para o ar não deixa de ser o mesmo por estar ao contrário. E se se usarem óculos inversores, ele volta a estar de pernas para baixo. Mas o escritor ou qualquer artista original torna visível um dos possíveis invisíveis para uma nova visibilidade. E essa nova visibilidade é que é diferente na maneira profunda de o ser. Ou então diremos de alguém que não é original mas um original. É o que dizemos habitualmente e com suavidade de um tipo apancadado. Somente se o dizes de um palhaço da arte o apancadado és tu.

Vergílio Ferreira (no livro Escrever)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Caros leitores,

Com a ajuda do Doutor Lourenço, as minhas canções têm agora um lar:
www.myspace.com/doutorateresa

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Hoje no almoço de Natal,

O Doutor Lourenço ofereceu um avental azul com o rosto de Ivan Pavlov à Doutora Isabel, defensora acérrima da psicologia comportamental. Doutora Isabel, por sua vez, ofereceu à Doutora Helena uma estatueta de bronze de Carl Rogers por saber que no seu consultório Doutora Isabel pratica uma psicologia humanista, centrada no indivíduo e baseada na empatia. A Doutora Helena ofereceu ao Doutor Manuel um conjunto de camisola e calças de pijama às riscas cinzentas e verdes da marca de antipsicóticos Zyprexa Olanzapine, pois quis desfazer-se de alguns brindes que delegados de informação médica lhe ofereceram este ano. Por sua vez, o Doutor Manuel deu umas risadas e entregou à Doutora Helena o seu presente: um conjunto de caneta e bloco do Seroquel, um neuroléptico. Ao Doutor Lourenço, o Doutor Manuel ofereceu um isqueiro especial assinado por Philip Zimbardo com uma dedicatória muito especial. Doutora Helena sorriu e aproveitou a deixa para oferecer à Doutora Isabel um conjunto de seis chávenas de chá e pires pintados à mão com a pirâmide de Maslow. Posto isto, a Doutora Helena entregou ao Doutor Lourenço uma pintura a óleo de Piaget e colaboradores brincando com seis crianças. Doutor Lourenço ficou comovido e aproveitou o momento para dar ao Doutor Manuel um tapete de rato com a fotografia de Albert Bandura sorrindo a meio de um dos seus estudos experimentais.
A comida estava óptima e, dentro dos sacos que carreguei nas mãos à vinda para casa, trouxe uma réplica de Freud em chocolate, uma moldura com uma fotografia de Doctor Phil por ele autografada, uma agenda 2009 da marca Prozac e o livro "Reminiscências".

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Um amor platónico veraneante

Em Junho deste ano, entre Manhattan e Washington DC, fui acometida por uma paixão que tomou posse das minhas faculdades cognitivas. Essa paixão dura até hoje e é sempre com um sorriso que contemplo, de esguelha, esse rosto resplandecente quando fazendo zapping me deparo com a sua cara e com o seu discurso que tanto aprecio.

Bem sei que jamais será possível construir uma vida a dois consigo. É uma vida feita de reminiscentes encontros e desencontros. Acha que nos encontramos noutra vida, Phil?



A canção que vos apresento foi feita no quarto do hotel em que me encontrava hospedada em Junho. A minha voz, devido às inúmeras conferências desses dias, não estava nas melhores condições mas urgia registar sentimentos transcendentais. Gravá-la-ei de novo um destes dias.




segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Se tiver dois minutos disponíveis, contar-lhe-ei a história da minha vida

Um quarto andar em Lisboa. Tocamos à campainha numa terça-feira amena. Quem nos abre a porta é Doutora Teresa, trazendo nas mãos uma caneca de chá quente e um sorriso contemplativo.

A sua paixão pela psicologia começou desde muito cedo. Doutora Teresa olha pela janela do seu escritório e fixa um ponto inexistente. “Em pequena costumava brincar aos psicanalistas com as minhas amigas. Sentava-me numa cadeira, punha os óculos que surripiava à minha mãe quando ela não estava em casa e tecia análises psicológicas, sempre fictícias, durante tardes a fio. As minhas amigas participavam: encenavam gritos, choros e risos. Diagnosticava-lhes esquizofrenias, neurastenias. Nessa altura ainda não sabia concretamente o significado dos termos que usava”.

Aos 11 anos de idade, Doutora Teresa mascara-se de Freud provocando agitação no seio da família, num meio burguês e conservador. “Quando apareci no dia de Carnaval vestida de Freud, os meus pais não queriam deixar-me ir mascarada daquela forma para o colégio. Diziam que era ofensivo, que não era traje para uma menina usar. Mas eu fui resistente! [risos] Recusei-me a sair de casa enquanto eles não se resignassem. E resignaram-se”.

Aos 15 anos, Doutora Teresa interessava-se cada vez mais por literatura. “Estava absorta nos livros. A minha vida era ler. Saía do colégio, caminhava em direcção à biblioteca e lia avidamente os livros do Eça de Queirós, do Tolstoi. Acabei por me afastar do mundo. [pausa] Acho que teci nessa altura uma barreira intransponível entre mim e os outros indivíduos. Foi nessa altura que descobri Fernando Pessoa e me apaixonei pelo heterónimo Alberto Caeiro”.

De facto, este acontecimento mudou-lhe a vida. Aos 17 anos, profundamente influenciada pela poesia de Alberto Caeiro, Doutora Teresa faz as malas e ruma à casa de campo dos seus antepassados, abandonada havia um século. “Quando cheguei ao norte, vi a casa quase em ruínas, sem luz e sem água. Acabei por me instalar na mesma. Queria experienciar a vida como Alberto Caeiro a descrevia: sentir o sol na face, o frio de noite e escutar a Natureza. Comunicar com a divindade contida em todas essas coisas”.

Foi também nessa casa de campo que descobriu a música. “Certo dia passava um viandante que ia para longe de comboio. Tinha de se desfazer de uma guitarra acústica que carregava debaixo do braço. Ele quis oferecer-ma: eu disse que não sabia tocar guitarra. Ele insistiu, recordo-me como se fosse hoje: disse-me que não era preciso saber tocar, que a música estava dentro de nós. Fiquei com a guitarra e com um disco que me deixou, para recordação, do John Fahey”. Desde essa altura Doutora Teresa nunca mais parou de fazer canções. “É uma forma de catarse, de falar dos meus dias e da vida que me rodeia. A música tornou-se o meu psicanalista [risos]”.

Após dois anos passados no campo, lendo e relendo as obras de Freud, Doutora Teresa decide ingressar em Psicologia, sua velha paixão, voltando de novo para Lisboa. Conclui o curso aos 23 anos com média de 17 valores. “Inicialmente comecei a trabalhar na área dos recursos humanos, por pressão da família. Mas houve uma altura em que tive de pôr um ponto final a essa fase da minha vida. Era muito duro e causava-me grande frustração saber que não estava contribuindo para ajudar as pessoas a ajudarem-se a elas mesmas”. Assim, aos 28 anos Doutora Teresa abre o seu consultório em parceria com um antigo colega de faculdade, Doutor Lourenço, e nunca mais larga a psicologia clínica - sua verdadeira paixão.

Desde então Doutora Teresa tem dedicado a sua carreira a ajudar os indivíduos, tendo também uma vasta colecção de artigos científicos e obras publicadas no meio literário e científico. “Guardo algumas saudades da minha vida no campo mas por agora sinto que a minha missão na vida é continuar a ajudar os indivíduos que me rodeiam”.

Publicado em Março de 2005, Revista Psicólogos no Quotidiano, Nº31

sábado, 15 de novembro de 2008

Diagnóstico

A primeira vez que me deparei com um paciente esquizofrénico foi em 1995, começava então a exercer psicologia clínica em Lisboa. Só em 2007 surge novamente um caso de esquizofrenia no meu consultório.
Pois é justamente sobre esse segundo caso que surge a canção que agora partilho convosco.

Tendo sido composta em Abril do ano corrente, só agora encontrei motivo para gravá-la visto que o hospital psiquiátrico em que trabalho neste momento promove em Dezembro a campanha
Ergamo-nos Contra a Marginalização das Patologias A568GB.
Cada audição da canção reverte uma réplica do auto-retrato de Freud, "1916", a favor de cada doente patológico A568GB. Grata pela vossa colaboração.

Esta canção conta com registos audio recolhidos nas consultas com o paciente.

domingo, 28 de setembro de 2008


Caros leitores,

Diariamente, mais de 30000 indivíduos são atingidos nas pernas, nas costas e nos braços por dezenas de sacos, mochilas e outras malas enquanto viajam pacificamente pelas linhas do metropolitano.

Realizar-se-á depois de amanhã, dia 30 de Setembro, uma palestra sobre os efeitos das pancadas dos sacos e malas em indivíduos utilizadores do metropolitano.
Eu e o Doutor Lourenço tentaremos demonstrar, através de estudos científicos realizados nas universidades mais prestigiadas da Europa, os efeitos negativos das pancadas de sacos e malas na saúde mental dos indivíduos.

De facto, parece haver uma forte relação entre fazer viagens no metropolitano levando frequentemente com pancadas de sacos de compras e malas em diversas zonas do corpo e níveis elevados de stress fóbico composto, que podem no futuro dar azo a uma abulia repulsiva de grau seis.

A não perder, a partir das 19h no Auditório Borges Castro, Rua das Fanzílias Nº23.

sábado, 20 de setembro de 2008

Pessoas

Caros leitores,

Foram mais de dois meses estes em que, abnegando tudo, me evadi da cidade.
Evadi-me de Lisboa, depósito de toda a minha vida enquanto sepulcro de rotinas bafientas que me encarceravam num caixote, como roupas que já não servem e se atiram em saco preto com dois nós na arrecadação na cave e lá jazem condenadas para sempre.
Absolvi-me, inverti-me a cave que me estava destinada.

Percorri aldeias, auto-estradas, autocarros, cruzei-me com indivíduos superficial e mecanicamente: para lhes perguntar direcções, alugar um quarto ou pedir uma refeição. Confiei na minha solidão para me guiar, convencida de que era a forma mais nobre para me regenerar e encontrar a paz.

Até que, na claridade de um céu sem nuvens, quebrei o estar-se sozinho.
Para trás ficam amigos recém-chegados, sóis incandescentes, com quem descobri que os indivíduos não pisam a erva e as pedras que também pisamos para que apenas os olhemos com uma curiosidade sociológica distante.

Nas grandes cidades tendemos a avaliar os indivíduos sobretudo dessa forma, com alguma legitimidade até - poucos são os indivíduos civilizados, que não nos parecem carecer de toda a humanização e bondade subjacente ao Homem na sua primordialidade.

Porém, por detrás desse marasmo, descobrimos de vez em quando pessoas.
E, apesar de tudo, é isso que nos sustém. Ainda que enquanto miragem, esperança ou ideal.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas…
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Alberto Caeiro

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Viagens (uma canção para os leitores)

Continuam as deambulações por cidades e lugares desconhecidos.

Deixo-vos uma canção que fiz ontem, ao escurecer, na arrecadação da estalagem em que me encontro.
Lá jazia uma guitarra acústica, enquanto que em mim jazia o desespero e a melancolia de final de tarde.

Contemplativo - Doutora Teresa

sábado, 19 de julho de 2008

Viagens (dia quinto)

Descanso numa estalagem no Alto Alentejo. Sento-me numa velha cadeira de pernas desiguais e olho pela janela do quarto de onde vejo uma estrada vazia. O silêncio é quebrado quando, raramente, passam carros rápidos com indivíduos que não consigo chegar a ver.

A estalagem tem seis quartos mas, por nunca ter visto ou ouvido outros hóspedes, julgo ser a única pessoa aqui instalada. A estreita cama de madeira onde me tenho prostrado é escura e confortável, as paredes verde água do quarto transportam-me para um confronto interior onde me assaltam reminiscências do que tenho sido, do que os outros têm sido. O cheiro é o de um lugar há muito desabitado: convivem, de mãos dadas, o cheiro a madeira antiga, alguma humidade e um aroma a produtos de limpeza de madeiras.

Sempre me servi das férias para viajar. Observar paisagens e indivíduos é observarmo-nos a nós mesmos, é a aparição daquilo que andou adormecido o resto do ano e o resto da vida.

Viajo e é como se pesasse sobre mim o peso de um balanço necessário, um fechar de ciclo que acaba com a morte - morte que é sobretudo renovação.

Piso os lugares mais recônditos e longínquos para, através do isolamento que é também envolvimento distante, chegar ao apaziguamento e à acalmia e a uma tão aguardada renovação interior.