sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Vidas
Por vezes a vida é estática e triste e entretemo-nos contando os telemóveis que os indivíduos trazem nas mãos enquanto deslizam pelas linhas do metropolitano. Envergonhados, baixamos a cabeça e recolhemos às nossas casas. Pomos a cabeça na almofada e esperamos acordar menos tristes no dia seguinte.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Depressão
O indivíduo chorava convulsivamente (algumas lágrimas chegaram mesmo a molhar os casacos dos indivíduos que passavam pela rua) e escondia-se num local alto e isolado, local que lhe permitia distanciar-se dos indivíduos, do contacto social e das próprias estruturas sociais. Quando tentei estabelecer diálogo com este indivíduo pude constatar que a sua cooperação era praticamente nula. O indivíduo recusava-se a ser ajudado.
Porém, persisti. Sentia-me no dever de ajudar um ser perdido nos meandros da depressão.
- O senhor precisa de ajuda, deixe-me ajudá-lo - gritava eu de cabeça inclinada para o céu - diga-me o que sente, diga-me o que o faz chorar, prometo-lhe que é confidencial e que se vai sentir melhor.
Mas o indivíduo recusava-se a cooperar.
Após algumas horas de observação pude concluir que o indivíduo habitava uma nuvem acinzentada de grande extensão, podendo este facto revelar que o indivíduo terá fugido de casa e da família estando agora a viver numa nuvem, desprovido das condições básicas de conforto para um ser-humano.
Com alguma insistência consegui fazer com que o indivíduo aceitasse cooperar e começar uma terapia cognitivo-comportamental baseada na neo-psicanálise. Passaram duas semanas desde o começo da terapia. O indivíduo continua a chorar todos os dias mas a terapia parece estar a ter um efeito positivo no estado emocional do indivíduo. Embora o indivíduo, por embaraço, se recuse a mostrar-me a sua cara estou em crer que a sua auto-estima vá melhorar bastante nos próximos meses e que talvez em Junho o seu choro cesse e possamos finalmente conhecer as caras um do outro.
Até Junho deslocar-me-ei todas as quartas-feiras à Rua José das Dores Pacheco, sentar-me-ei num banco, de guarda-chuva aberto, e bradarei aos céus questões e conselhos sobre a existência e sobre a depressão.
sábado, 31 de janeiro de 2009
Sábado
Lançaremos dez planos em miragens existenciais
domingo, 25 de janeiro de 2009
Jazem ainda na minha secretária
Partilho convosco, caros leitores, um deles:
Um indivíduo, estudante numa universidade que lecciona as Letras, apresenta uma potencial esquizofrenia atípica que anda de mãos dadas com a quantidade de livros, teorias e pensadores que tem estudado ao longo dos últimos três anos da sua vida. Este indivíduo tem episódios paranóides disténicos reminiscentes. Na consulta que teve lugar há dois meses e meio, o indivíduo apresentou-se envergando um fato-macaco azul escuro julgando viver numa distopia. Noutra consulta mais recente insistia em dialogar comigo somente por meio de citações: "como diria Nietzsche" ou "como diria Hegel". Na última consulta apresentava um estado avançado de ideias delirantes, uma linha de raciocínio bastante confusa misturando ideias do que me pareceu ser Heidegger, Simmel, Jankelevitch e Santo Anselmo. Além de todos estes sintomas, o indivíduo em questão sente-se recorrentemente perseguido pelos professores que leccionam as cadeiras afirmando que estes têm por hábito torturar lentamente os alunos desprovidos de contactos importantes na universidade, vulgo cunhas.
Torna-se complexo ajudar este indivíduo sem o encaminhar para o Doutor Lourenço. Contudo, gostaria primeiramente de tentar uma solução terapêutica para este paciente que não envolvesse medicação.
Aceito, caros leitores, as vossas sugestões na resolução deste caso.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Porque ninguém explicaria melhor
Se a falta de imaginação está comigo (juntemos-lhe três casos patológicos bastante complexos na minha secretária), resta-me deixar-vos uma pequena reflexão de um escritor e pensador fundamental:
Todo o escritor que é original é diferente. Mas nem todo o que é diferente é original. A originalidade vem de dentro para fora. A diferença é ao contrário. A diferença vê-se, a originalidade sente-se. Assim uma é fácil e a outra é difícil. A diferença é uma fórmula, a originalidade é uma forma ou mais do que isso um modo de se ser. Para se ser diferente vai-se ao alfaiate ou à modista. Para se ser original vai-se ter com Deus no momento de nos fabricar. É fácil escrever-se sem pontuação ou com pontos e vírgulas em vez de pontos finais, ou escrever com minúsculas depois desses pontos, ou atirar com as palavras à arrebatinha e dispô-las como caírem, ou escrever ondeado em vez de a direito, ou cortar a prosa aos bocados e dispô-los em vários tamanhos, ou deixar as páginas em branco ou a preto, ou fazer qualquer sorte de piruetas como um palhaço de circo. Agora o que é difícil é sentir de um modo novo, recriar um mundo por sobre o que já foi recriado, ver o que os cegos constitucionais não enxergam. Pôr seja o que for de pernas para o ar não deixa de ser o mesmo por estar ao contrário. E se se usarem óculos inversores, ele volta a estar de pernas para baixo. Mas o escritor ou qualquer artista original torna visível um dos possíveis invisíveis para uma nova visibilidade. E essa nova visibilidade é que é diferente na maneira profunda de o ser. Ou então diremos de alguém que não é original mas um original. É o que dizemos habitualmente e com suavidade de um tipo apancadado. Somente se o dizes de um palhaço da arte o apancadado és tu.
Vergílio Ferreira (no livro Escrever)
domingo, 4 de janeiro de 2009
Caros leitores,
www.myspace.com/doutorateresa
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Hoje no almoço de Natal,
A comida estava óptima e, dentro dos sacos que carreguei nas mãos à vinda para casa, trouxe uma réplica de Freud em chocolate, uma moldura com uma fotografia de Doctor Phil por ele autografada, uma agenda 2009 da marca Prozac e o livro "Reminiscências".
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Um amor platónico veraneante
Bem sei que jamais será possível construir uma vida a dois consigo. É uma vida feita de reminiscentes encontros e desencontros. Acha que nos encontramos noutra vida, Phil?
A canção que vos apresento foi feita no quarto do hotel em que me encontrava hospedada em Junho. A minha voz, devido às inúmeras conferências desses dias, não estava nas melhores condições mas urgia registar sentimentos transcendentais. Gravá-la-ei de novo um destes dias.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Se tiver dois minutos disponíveis, contar-lhe-ei a história da minha vida
A sua paixão pela psicologia começou desde muito cedo. Doutora Teresa olha pela janela do seu escritório e fixa um ponto inexistente. “Em pequena costumava brincar aos psicanalistas com as minhas amigas. Sentava-me numa cadeira, punha os óculos que surripiava à minha mãe quando ela não estava em casa e tecia análises psicológicas, sempre fictícias, durante tardes a fio. As minhas amigas participavam: encenavam gritos, choros e risos. Diagnosticava-lhes esquizofrenias, neurastenias. Nessa altura ainda não sabia concretamente o significado dos termos que usava”.
Aos 11 anos de idade, Doutora Teresa mascara-se de Freud provocando agitação no seio da família, num meio burguês e conservador. “Quando apareci no dia de Carnaval vestida de Freud, os meus pais não queriam deixar-me ir mascarada daquela forma para o colégio. Diziam que era ofensivo, que não era traje para uma menina usar. Mas eu fui resistente! [risos] Recusei-me a sair de casa enquanto eles não se resignassem. E resignaram-se”.
Aos 15 anos, Doutora Teresa interessava-se cada vez mais por literatura. “Estava absorta nos livros. A minha vida era ler. Saía do colégio, caminhava em direcção à biblioteca e lia avidamente os livros do Eça de Queirós, do Tolstoi. Acabei por me afastar do mundo. [pausa] Acho que teci nessa altura uma barreira intransponível entre mim e os outros indivíduos. Foi nessa altura que descobri Fernando Pessoa e me apaixonei pelo heterónimo Alberto Caeiro”.
De facto, este acontecimento mudou-lhe a vida. Aos 17 anos, profundamente influenciada pela poesia de Alberto Caeiro, Doutora Teresa faz as malas e ruma à casa de campo dos seus antepassados, abandonada havia um século. “Quando cheguei ao norte, vi a casa quase em ruínas, sem luz e sem água. Acabei por me instalar na mesma. Queria experienciar a vida como Alberto Caeiro a descrevia: sentir o sol na face, o frio de noite e escutar a Natureza. Comunicar com a divindade contida em todas essas coisas”. Foi também nessa casa de campo que descobriu a música. “Certo dia passava um viandante que ia para longe de comboio. Tinha de se desfazer de uma guitarra acústica que carregava debaixo do braço. Ele quis oferecer-ma: eu disse que não sabia tocar guitarra. Ele insistiu, recordo-me como se fosse hoje: disse-me que não era preciso saber tocar, que a música estava dentro de nós. Fiquei com a guitarra e com um disco que me deixou, para recordação, do John Fahey”. Desde essa altura Doutora Teresa nunca mais parou de fazer canções. “É uma forma de catarse, de falar dos meus dias e da vida que me rodeia. A música tornou-se o meu psicanalista [risos]”.
Após dois anos passados no campo, lendo e relendo as obras de Freud, Doutora Teresa decide ingressar em Psicologia, sua velha paixão, voltando de novo para Lisboa. Conclui o curso aos 23 anos com média de 17 valores. “Inicialmente comecei a trabalhar na área dos recursos humanos, por pressão da família. Mas houve uma altura em que tive de pôr um ponto final a essa fase da minha vida. Era muito duro e causava-me grande frustração saber que não estava contribuindo para ajudar as pessoas a ajudarem-se a elas mesmas”. Assim, aos 28 anos Doutora Teresa abre o seu consultório em parceria com um antigo colega de faculdade, Doutor Lourenço, e nunca mais larga a psicologia clínica - sua verdadeira paixão.
Desde então Doutora Teresa tem dedicado a sua carreira a ajudar os indivíduos, tendo também uma vasta colecção de artigos científicos e obras publicadas no meio literário e científico. “Guardo algumas saudades da minha vida no campo mas por agora sinto que a minha missão na vida é continuar a ajudar os indivíduos que me rodeiam”.Publicado em Março de 2005, Revista Psicólogos no Quotidiano, Nº31
sábado, 15 de novembro de 2008
Diagnóstico
Pois é justamente sobre esse segundo caso que surge a canção que agora partilho convosco.
Tendo sido composta em Abril do ano corrente, só agora encontrei motivo para gravá-la visto que o hospital psiquiátrico em que trabalho neste momento promove em Dezembro a campanha
Ergamo-nos Contra a Marginalização das Patologias A568GB.
Cada audição da canção reverte uma réplica do auto-retrato de Freud, "1916", a favor de cada doente patológico A568GB. Grata pela vossa colaboração.
Esta canção conta com registos audio recolhidos nas consultas com o paciente.