domingo, 4 de janeiro de 2009
Caros leitores,
www.myspace.com/doutorateresa
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Hoje no almoço de Natal,
A comida estava óptima e, dentro dos sacos que carreguei nas mãos à vinda para casa, trouxe uma réplica de Freud em chocolate, uma moldura com uma fotografia de Doctor Phil por ele autografada, uma agenda 2009 da marca Prozac e o livro "Reminiscências".
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Um amor platónico veraneante
Bem sei que jamais será possível construir uma vida a dois consigo. É uma vida feita de reminiscentes encontros e desencontros. Acha que nos encontramos noutra vida, Phil?
A canção que vos apresento foi feita no quarto do hotel em que me encontrava hospedada em Junho. A minha voz, devido às inúmeras conferências desses dias, não estava nas melhores condições mas urgia registar sentimentos transcendentais. Gravá-la-ei de novo um destes dias.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Se tiver dois minutos disponíveis, contar-lhe-ei a história da minha vida
A sua paixão pela psicologia começou desde muito cedo. Doutora Teresa olha pela janela do seu escritório e fixa um ponto inexistente. “Em pequena costumava brincar aos psicanalistas com as minhas amigas. Sentava-me numa cadeira, punha os óculos que surripiava à minha mãe quando ela não estava em casa e tecia análises psicológicas, sempre fictícias, durante tardes a fio. As minhas amigas participavam: encenavam gritos, choros e risos. Diagnosticava-lhes esquizofrenias, neurastenias. Nessa altura ainda não sabia concretamente o significado dos termos que usava”.
Aos 11 anos de idade, Doutora Teresa mascara-se de Freud provocando agitação no seio da família, num meio burguês e conservador. “Quando apareci no dia de Carnaval vestida de Freud, os meus pais não queriam deixar-me ir mascarada daquela forma para o colégio. Diziam que era ofensivo, que não era traje para uma menina usar. Mas eu fui resistente! [risos] Recusei-me a sair de casa enquanto eles não se resignassem. E resignaram-se”.
Aos 15 anos, Doutora Teresa interessava-se cada vez mais por literatura. “Estava absorta nos livros. A minha vida era ler. Saía do colégio, caminhava em direcção à biblioteca e lia avidamente os livros do Eça de Queirós, do Tolstoi. Acabei por me afastar do mundo. [pausa] Acho que teci nessa altura uma barreira intransponível entre mim e os outros indivíduos. Foi nessa altura que descobri Fernando Pessoa e me apaixonei pelo heterónimo Alberto Caeiro”.
De facto, este acontecimento mudou-lhe a vida. Aos 17 anos, profundamente influenciada pela poesia de Alberto Caeiro, Doutora Teresa faz as malas e ruma à casa de campo dos seus antepassados, abandonada havia um século. “Quando cheguei ao norte, vi a casa quase em ruínas, sem luz e sem água. Acabei por me instalar na mesma. Queria experienciar a vida como Alberto Caeiro a descrevia: sentir o sol na face, o frio de noite e escutar a Natureza. Comunicar com a divindade contida em todas essas coisas”. Foi também nessa casa de campo que descobriu a música. “Certo dia passava um viandante que ia para longe de comboio. Tinha de se desfazer de uma guitarra acústica que carregava debaixo do braço. Ele quis oferecer-ma: eu disse que não sabia tocar guitarra. Ele insistiu, recordo-me como se fosse hoje: disse-me que não era preciso saber tocar, que a música estava dentro de nós. Fiquei com a guitarra e com um disco que me deixou, para recordação, do John Fahey”. Desde essa altura Doutora Teresa nunca mais parou de fazer canções. “É uma forma de catarse, de falar dos meus dias e da vida que me rodeia. A música tornou-se o meu psicanalista [risos]”.
Após dois anos passados no campo, lendo e relendo as obras de Freud, Doutora Teresa decide ingressar em Psicologia, sua velha paixão, voltando de novo para Lisboa. Conclui o curso aos 23 anos com média de 17 valores. “Inicialmente comecei a trabalhar na área dos recursos humanos, por pressão da família. Mas houve uma altura em que tive de pôr um ponto final a essa fase da minha vida. Era muito duro e causava-me grande frustração saber que não estava contribuindo para ajudar as pessoas a ajudarem-se a elas mesmas”. Assim, aos 28 anos Doutora Teresa abre o seu consultório em parceria com um antigo colega de faculdade, Doutor Lourenço, e nunca mais larga a psicologia clínica - sua verdadeira paixão.
Desde então Doutora Teresa tem dedicado a sua carreira a ajudar os indivíduos, tendo também uma vasta colecção de artigos científicos e obras publicadas no meio literário e científico. “Guardo algumas saudades da minha vida no campo mas por agora sinto que a minha missão na vida é continuar a ajudar os indivíduos que me rodeiam”.Publicado em Março de 2005, Revista Psicólogos no Quotidiano, Nº31
sábado, 15 de novembro de 2008
Diagnóstico
Pois é justamente sobre esse segundo caso que surge a canção que agora partilho convosco.
Tendo sido composta em Abril do ano corrente, só agora encontrei motivo para gravá-la visto que o hospital psiquiátrico em que trabalho neste momento promove em Dezembro a campanha
Ergamo-nos Contra a Marginalização das Patologias A568GB.
Cada audição da canção reverte uma réplica do auto-retrato de Freud, "1916", a favor de cada doente patológico A568GB. Grata pela vossa colaboração.
Esta canção conta com registos audio recolhidos nas consultas com o paciente.
domingo, 28 de setembro de 2008

Caros leitores,
Diariamente, mais de 30000 indivíduos são atingidos nas pernas, nas costas e nos braços por dezenas de sacos, mochilas e outras malas enquanto viajam pacificamente pelas linhas do metropolitano.
Realizar-se-á depois de amanhã, dia 30 de Setembro, uma palestra sobre os efeitos das pancadas dos sacos e malas em indivíduos utilizadores do metropolitano.
Eu e o Doutor Lourenço tentaremos demonstrar, através de estudos científicos realizados nas universidades mais prestigiadas da Europa, os efeitos negativos das pancadas de sacos e malas na saúde mental dos indivíduos.
De facto, parece haver uma forte relação entre fazer viagens no metropolitano levando frequentemente com pancadas de sacos de compras e malas em diversas zonas do corpo e níveis elevados de stress fóbico composto, que podem no futuro dar azo a uma abulia repulsiva de grau seis.
A não perder, a partir das 19h no Auditório Borges Castro, Rua das Fanzílias Nº23.
sábado, 20 de setembro de 2008
Pessoas
Foram mais de dois meses estes em que, abnegando tudo, me evadi da cidade.
Evadi-me de Lisboa, depósito de toda a minha vida enquanto sepulcro de rotinas bafientas que me encarceravam num caixote, como roupas que já não servem e se atiram em saco preto com dois nós na arrecadação na cave e lá jazem condenadas para sempre.
Absolvi-me, inverti-me a cave que me estava destinada.
Percorri aldeias, auto-estradas, autocarros, cruzei-me com indivíduos superficial e mecanicamente: para lhes perguntar direcções, alugar um quarto ou pedir uma refeição. Confiei na minha solidão para me guiar, convencida de que era a forma mais nobre para me regenerar e encontrar a paz.
Até que, na claridade de um céu sem nuvens, quebrei o estar-se sozinho.
Para trás ficam amigos recém-chegados, sóis incandescentes, com quem descobri que os indivíduos não pisam a erva e as pedras que também pisamos para que apenas os olhemos com uma curiosidade sociológica distante.
Nas grandes cidades tendemos a avaliar os indivíduos sobretudo dessa forma, com alguma legitimidade até - poucos são os indivíduos civilizados, que não nos parecem carecer de toda a humanização e bondade subjacente ao Homem na sua primordialidade.
Porém, por detrás desse marasmo, descobrimos de vez em quando pessoas.
E, apesar de tudo, é isso que nos sustém. Ainda que enquanto miragem, esperança ou ideal.
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
VIII
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas…
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
Alberto Caeiro
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Viagens (uma canção para os leitores)
Deixo-vos uma canção que fiz ontem, ao escurecer, na arrecadação da estalagem em que me encontro.
Lá jazia uma guitarra acústica, enquanto que em mim jazia o desespero e a melancolia de final de tarde.
sábado, 19 de julho de 2008
Viagens (dia quinto)
A estalagem tem seis quartos mas, por nunca ter visto ou ouvido outros hóspedes, julgo ser a única pessoa aqui instalada. A estreita cama de madeira onde me tenho prostrado é escura e confortável, as paredes verde água do quarto transportam-me para um confronto interior onde me assaltam reminiscências do que tenho sido, do que os outros têm sido. O cheiro é o de um lugar há muito desabitado: convivem, de mãos dadas, o cheiro a madeira antiga, alguma humidade e um aroma a produtos de limpeza de madeiras.
Sempre me servi das férias para viajar. Observar paisagens e indivíduos é observarmo-nos a nós mesmos, é a aparição daquilo que andou adormecido o resto do ano e o resto da vida.
Viajo e é como se pesasse sobre mim o peso de um balanço necessário, um fechar de ciclo que acaba com a morte - morte que é sobretudo renovação.
Piso os lugares mais recônditos e longínquos para, através do isolamento que é também envolvimento distante, chegar ao apaziguamento e à acalmia e a uma tão aguardada renovação interior.